A Agenda Lotada das Crianças – O que importa realmente?

2 de maio de 2017

A Agenda Lotada das Crianças – O que importa realmente?

 

As atividades extracurriculares são benéficas para a criança, porém o excesso de ocupação pode ser prejudicial. As crianças precisam de tempo para brincar. Ao brincar elas elaboram assuntos do passado, do presente e ainda planejam o futuro. Brincando a criança conhece o mundo, interage com ele de forma prática e tem mais possibilidades de integrar os conhecimentos adquiridos com essa experiência. Sem esse momento precioso as crianças podem adoecer, pois não tem um tempo para si. Há uma certa confusão entre o que significa proporcionar uma boa educação para os filhos e lhes oferecer uma série de atividades para `elevar´ a qualidade de suas aprendizagens. Na ânsia de garantir ´um futuro promissor´, e prepará-los para enfrentar os desafios da vida, os pais lotam as agendas dos filhos para que tenham o maior número possível de estímulos.

No entanto é importante lembrar que a criança precisa de um tempo para integrar o que vive e aprende. Ficar em casa brincando com o irmão ou com os amigos, ir ao parque e interagir com a natureza, por exemplo, é extremamente produtivo para a criança, pois ela amplia suas competências motoras, cognitivas e afetivas e aprende sobre si, sobre o outro e sobre o mundo por meio de suas experiências lúdicas e corporais. Ao brincar a criança imagina, interpreta e vai apreendendo a realidade que se apresenta diariamente.

As atividades extracurriculares podem oportunizar experiências e aprendizagens muito ricas para as crianças. Além disso, favorecem a socialização pois noções de limite, respeito, empatia são abordados com frequência. Porém o excesso de compromissos pode gerar estresse, ansiedade além de outros problemas para as crianças como a puberdade precoce, por exemplo.

Com tantas coisas a fazer as crianças ficam sem tempo para interpretar as inúmeras informações que recebem o que pode gerar um desconforto crescente, pois elas são postas frente a situações diversas, mas sem maturidade suficiente para entende-las. Todos nós precisamos de tempo para processar o que vivemos. Esse excesso de atividades pode estar ligado também à falta de tempo dos pais para estar com seus filhos. Ocupando-os com uma agenda cheia, preenchem um espaço que poderia ser dedicado à escuta, à resolução de conflitos, a um tempo para buscar e encontrar interesses em comum e, simplesmente, brincar.

A rotina de atividades pode trazer benefícios como, por exemplo, oportunizar à criança um dia a dia mais organizado, porém, por outro lado, quando em excesso, não deixa espaço para a criança escolher o que deseja fazer, para a criatividade, para investir na capacidade de decidir e para, simplesmente, não ter nada para fazer.

Nesse contexto, o brincar se configura como uma atividade extremamente saudável e importante para a criança. Brincando ela se expressa e interpreta o mundo. O brincar na Psicomotricidade Relacional se diferencia do brincar no recreio no pátio da escola, por exemplo, pois ela conta com a presença do psicomotricista relacional que se coloca no jogo como seu parceiro simbólico. Ele interpreta o discurso que a criança faz sobre si, por meio do brincar, e lhe responde de maneira lúdica auxiliando-a a encontrar repostas para suas questões.

Outro fato importante é excesso de contato com jogos eletrônicos e mídias virtuais que pode afastar a criança do brincar. A criança precisa de um tempo para estar consigo mesmo. Além disso, brincar com os amigos implica um confronto com a realidade e investimento no social, o que é bem diferente da experiência virtual. Sentado no sofá a criança pode fazer tudo com um dedo só. Na brincadeira ela precisa de todo o corpo, da emoção, da cognição, da motricidade para estar com os outros.

É interessante observar também que o brincar de outras atividades, como natação, teatro, dança, que entram na agenda de compromissos das crianças é diferente. Essas atividades são muito importantes, mas são mais diretivas e envolvem normas. O brincar é espontâneo, ou seja, é um tempo de liberdade e de escolha para ser o que se deseja. Além disso, há sempre a possibilidade de sair da brincadeira e escolher outra. Aquilo que a criança aprende brincando pode ser melhor integrado, pois envolve escolhas pessoais.

Há benefícios que somente o “brincar” pode trazer. Brincar sozinho é diferente do brincar compartilhando. Ambos são fundamentais. Ao brincarem sozinhas as crianças criam seu próprio mundo, sem interferências, o que é importante também. A criança tem o livre arbítrio para fazer escolhas, criar, elaborar, sem ter que prestar contas a ninguém. Nesse tempo é possível fazer tudo aquilo que não é possível quando o outro está presente. Mas somente brincar sozinho não é saudável. O brincar compartilhado é fundamental para a criança aprender a se ajustar ao outro. Não vivemos em uma ilha deserta. Precisamos do outro para sermos quem somos, para aprendermos a nos afirmar, lidar com conflitos, investir nas relações afetivas, sermos empáticos, etc.

Os pais podem incentivar seus filhos a brincar e é importante que eles também participem desses momentos. A melhor maneira para fazer isso é dedicar um tempinho para brincar junto com o filho, encontrando prazer nesse momento de liberdade, que não deve ser preenchido com as normas do dia a dia. Mas para isso é necessário saber em quais atividades ou brincadeiras o filho encontra prazer. Perguntar à criança com o que deseja brincar e dedicar, durante a semana, momentos de disponibilidade e entrega, para estar com o filho, sem julgamentos e sem desviar a atenção é fundamental. Deixar as preocupações do dia a dia de fora desse momento e compartilhar a brincadeira com o filho, sem assumir posturas pedagógicas, se configura em um tempo e um espaço riquíssimo na relação entre pais e filhos. É simplesmente viver o prazer de brincar junto.

Autores:

José Leopoldo Vieira

Ana Elizabeth Luz Guerra

Módulo Inaugural – Pós-graduação em Psicomotricidade RelacionalI Seminário Beneficente 2017