Entrevista: Um olhar para a obesidade infantil

29 de julho de 2014

Entrevista concedida ao Portal de Educação Física na íntegra – 2014

Ana Elizabeth Luz Guerra

Qual a importância do alimento na relação entre pais e filhos?

Ana Elizabeth Luz Guerra: A alimentação vai além de uma necessidade biológica, pois possui também um valor simbólico. Ela possibilita que haja uma vinculação entre pais e filhos na medida em que se configura numa comunicação profunda entre eles que se inicia já nos primeiros momentos se vida. Por exemplo, o bebê ao ser alimentado, recebe, além do leite, o carinho, o toque  que envolve, o calor e o cheiro do corpo dos pais, o olhar que protege, a voz que embala. A fome, que inicialmente despertou o choro pela primeira mamada, passa a ser acompanhada pelo desejo de estar com o outro. Essa dinâmica segue por toda a vida que, muitas vezes, passa a ser celebrada ao redor da comida. Cozinhar para um filho, mesmo já adulto, pode significar um gesto de amor. Ao passo que o filho, quando aceita e desfruta do alimento, simbolicamente, recebe o amor de seus pais. Se recebo o alimento com prazer e o coloco dentro de meu corpo, introjeto também o amor de quem o fez.

Sob uma ótica relacional, o alimento pode ser considerado, pela criança ou pelos pais, um substituto da relação?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Sim. Há casos em que a família, por exemplo,  acaba superalimentando a criança para preencher uma falta na relação, uma falta de tempo, falta de afeto. Os pais, às vezes, se sentem culpados por alguma motivo e equacionam uma lógica em que nada pode faltar e, dessa forma, acabam por encher a criança de brinquedos, de comida, de permissividade. Ao superalimentarem a criança ou simplesmente apresentarem dificuldades em estabelecer hábitos alimentares saudáveis, dar limites, frustrar, alguns pais, por exemplo, permitem que a criança faça uso de guloseimas sem muitas restrições, coma na frente da televisão, se acostume a receber sempre na boca a comida mesmo que em idade avançada, entre outros comportamentos.

A superproteção pode ser a causa da falta de limites na escolha do alimento pela criança?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Tanto a falta quanto o excesso de proteção são prejudiciais ao bom desenvolvimento da criança, pois a mantêm numa relação de dependência afetiva. Superproteger pode implicar dificuldade por parte da família em frustrar os filhos também na hora de escolher a comida. Dessa forma a criança termina por decidir o que vai comer e, muitas vezes, desenvolve hábitos alimentares não saudáveis.

Os pais têm consciência da obesidade do filho e das limitações e doenças que podem causar?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Há famílias que se orgulham de ter um filho gordinho pois, para elas, isso é sinal de saúde, de beleza, de fartura. Outras, porém, têm consciência do prejuízo que os maus hábitos alimentares podem gerar, no entanto, a dificuldade em estabelecer uma relação mais saudável com ato de alimentar seus filhos é tanta que, algumas vezes, é necessário uma ajuda profissional. Há ainda pais que culpabilizam a criança por estar obesa e outros, que por terem a mesma relação com a comida, não conseguem fazer muito para ajudá-la.

Quais são as principais limitações psicomotoras da criança obesa?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Em geral as crianças obesas têm limitações funcionais do movimento. Além disso é comum apresentarem autoestima baixa o que faz com que sintam-se menos capazes de realizar certos movimentos e, muitas vezes, nem tentam realizá-los por vergonha e medo de se exporem.

Como mudar essa relação da criança com a comida e com a família?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Tudo começa pelo exemplo dos pais. A alimentação familiar é fundamental para a criança adquira bons hábitos. A relação dos pais com a comida e a consciência de que podem estar contribuindo positivamente ou negativamente para a saúde do filho deve ser investigada. Dependendo do caso e do grau, a família vai necessitar de orientações específicas de um médico, de um nutricionista e, algumas vezes, é necessário acompanhamento terapêutico para que a família possa ressignificar sua relação com a comida e com o ato de alimentar seus filhos.  A criança obesa, muitas vezes, se encontra fragilizada e, além dos cuidados com a saúde física, pode ser necessária uma intervenção terapêutica para que ela encontre o lugar de sujeito nessa relação, ou seja, encontre-se com a verdade do seu desejo, que deve estar em consonância consigo e não com o que imagina que os outros esperam dela.

A criança que relaciona as emoções aos alimentos vai carregar isso consigo pro resto da vida? Ela corre o risco de transmitir isso aos seus filhos também?

Ana Elizabeth Luz Guerra: As experiências que vivemos geram marcas que ficam inscritas em nosso psiquismo e nos acompanham pela vida influenciando as modalidades de relação que estabelecemos.  Com certeza corre-se o risco de uma repetição.

Há algo de importante ou pertinente a comentar sobre o tema e que ainda não abordamos?

Ana Elizabeth Luz Guerra: Em meu trabalho clínico com a Psicomotricidade Relacional¹ percebo um aumento significativo de crianças com dificuldades emocionais relacionadas à obesidade. A imagem que tem si, muitas vezes distorcida, contribui para um quadro de isolamento em que ela nega o que mais deseja que é interagir com os demais.  Dessa forma é importante que a família, a escola e todos que se relacionam com a criança estejam atentos aos seus comportamentos sintomáticos, pois são geral mensagens endereçadas aos outros e que ela, sozinha, não consegue decifrar.

¹A Psicomotricidade Relacional é uma “práxis” preventiva e terapêutica que enfatiza a motricidade humana e sua relação de reciprocidade com o psiquismo. Prioriza o movimento espontâneo, a linguagem analógica, a comunicação tônica, o brincar espontâneo e o jogo simbólico, dentro de um contexto grupal, para que o sujeito possa contar de si pelo viés do discurso corporal, contatar com seu desejo, elaborar conflitos e desenvolver-se na busca de um viver melhor e mais saudável. Nessa metodologia, o corpo-sujeito do psicomotricista relacional está sobremaneira implicado nas intervenções psicomotoras (GUERRA, 2012).

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PHD EMPRESARIALPHD EMPRESARIAL – CRC-PR

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